Quem viveu a era das fichas sabe que o fliperama era um lugar sagrado. A moeda quente na mão, a fila de pessoas em volta da máquina, o cheiro de fumaça, o som alto e aquela tensão de não querer perder a vida e ter que pagar outra ficha. Era ali, no bar da esquina, na locadora ou no shopping, que muita gente brasileira conheceu os jogos que viraram lenda. E a melhor notícia de todas: dá pra reviver tudo isso hoje, na palma da mão, num handheld baratinho.
Separei aqui os clássicos de fliperama que marcaram a era das fichas no Brasil. Cada um vem com um comentário sobre por que ele virou febre nas máquinas. No fim, explico como jogar tudo isso hoje, de forma simples e dentro da legalidade. Prepara a nostalgia.
Os reis da luta: o gênero que dominava as máquinas
Se tinha uma máquina sempre cercada de gente apostando ficha, era a de luta. Foi o gênero que definiu o fliperama dos anos 90.
Street Fighter II é o jogo que mudou tudo. Antes dele, fliperama era pontuação; depois dele, virou competição entre pessoas. Foi o estouro mundial que encheu os fliperamas brasileiros, com filas pra desafiar o invicto da máquina. Hadouken e shoryuken entraram pro vocabulário de uma geração inteira. Difícil exagerar o tamanho do impacto desse jogo.
The King of Fighters (especialmente o 97, 98 e 2002) foi a paixão nacional logo depois. O combate por equipes de três, o elenco gigante e aquela trilha sonora marcante fizeram do KOF talvez o jogo de luta mais querido dos fliperamas brasileiros. Quem nunca discutiu se era melhor o time de fogo ou o de boxe?
Mortal Kombat trouxe o choque: lutadores digitalizados de pessoas reais, sangue jorrando e os fatalities que viraram lenda de pátio de escola. Metade da diversão era descobrir os comandos secretos pra acabar com o oponente de forma bizarra. Era o jogo proibido e desejado.
Marvel vs Capcom (1 e 2) foi o caos colorido perfeito: heróis da Marvel contra personagens da Capcom, times de três, combos absurdos e telas explodindo de efeitos. Pura festa, especialmente jogando com alguém do lado.
Tekken (1, 2 e 3) trouxe a luta 3D pros fliperamas. O Tekken 3, em particular, era onipresente nas máquinas do fim dos anos 90, com aquele elenco carismático e o sistema de combate que premiava quem treinava de verdade.
Beat 'em up: a pancadaria que juntava a galera
O outro gênero que reinava no fliperama era o beat 'em up, aquela pancadaria de avançar pela tela limpando ondas de inimigos. Eram os jogos perfeitos pra juntar dois, três, quatro amigos numa máquina só, e por isso comiam ficha que era uma beleza.
Cadillacs and Dinosaurs é talvez o beat 'em up mais cultuado do fliperama brasileiro. A combinação de socos, armas e dinossauros num cenário pós-apocalíptico, com aquele visual caprichado da Capcom, fez dele um fenômeno absoluto nas máquinas do Brasil. Quem jogou nunca esqueceu.
Final Fight é o pai do gênero na Capcom. Haggar, Cody e Guy limpando as ruas de Metro City a socos definiram o que um beat 'em up deveria ser. O golpe de Haggar girando ainda mora na memória de muita gente.
The Punisher colocava Frank Castle e Nick Fury limpando a cidade a socos, chutes e tiros, num beat 'em up violento e divertidíssimo da Capcom. Era cru, era brutal e era viciante.
Knights of the Round levou a pancadaria pra Idade Média, com os cavaleiros do Rei Arthur e um sistema de evolução de personagem que era novidade na época. Subir de nível conforme avançava dava um gostinho de RPG que prendia o jogador na máquina.
Captain Commando era o beat 'em up da Capcom com aquele quarteto improvável, incluindo um bebê pilotando um robô e uma múmia. Estiloso, divertido e perfeito pra quatro jogadores ao mesmo tempo.
The Simpsons Arcade transformava a família amarela em justiceiros de rua, com quatro jogadores enfrentando os capangas do Smithers. Caos nostálgico em estado puro, ainda melhor com a máquina lotada.
Run and gun: ação frenética por ficha
Tinha também os jogos de tiro lateral, de correr e atirar, que eram puro reflexo e adrenalina.
Metal Slug (a série inteira) é a referência absoluta. A animação 2D desenhada à mão é um espetáculo de capricho até hoje, o humor é genial e a ação não dá trégua. Cada Metal Slug comia ficha rápido justamente porque era difícil e a gente não conseguia parar de jogar. É o ápice da arte 2D nos fliperamas.
Sunset Riders era o western em pixel art da Konami: caubóis atirando, cavalgando e enfrentando chefões memoráveis num cenário do velho oeste. Colorido, divertido e ótimo em dupla, virou clássico instantâneo nas máquinas.
Os clássicos atemporais e os de pontuação
Antes da luta e dos beat 'em ups dominarem, os fliperamas eram feitos de jogos simples e geniais, de bater recordes de pontuação. Muitos atravessaram décadas sem perder o charme.
Bubble Bobble colocava dois dinossauros soltando bolhas pra prender inimigos em fases coloridas e cada vez mais malucas. Charme puro, ótimo em dupla e impossível de não gostar. Aquela musiquinha gruda na cabeça até hoje.
NBA Jam revolucionou o basquete eletrônico com aquele exagero delicioso: jogadores pulando até o teto, bolas pegando fogo e o narrador gritando "he's on fire!". Era escândalo de diversão, principalmente com a galera disputando.
Pac-Man e Galaga são os avós do fliperama, os jogos que estavam ali desde sempre, em qualquer canto. Simples, perfeitos e eternos, continuam viciantes décadas depois e cabem em qualquer cartão.
Dica
A maioria desses clássicos é leve pra emular, mas os de luta brilham ainda mais quando você liga o handheld na TV e chama alguém pra jogar com um controle de verdade. Street Fighter e King of Fighters com dois controles na tela grande viram uma noite de fliperama dentro de casa, do jeito que era nos velhos tempos.
Como jogar os clássicos de fliperama hoje
Aqui está a parte boa: reviver o fliperama num handheld é uma das coisas mais fáceis de todo o hobby de emulação. Esses jogos são 2D e leves pros padrões atuais, então rodam liso até nos portáteis mais baratos do mercado.
A emulação de arcade acontece via MAME e FBNeo (FinalBurn Neo), dois projetos maduros presentes em praticamente todo firmware de handheld. Arcade tem algumas pegadinhas técnicas (precisa que a versão da ROM bata com a do emulador, e jogos de Neo Geo pedem uma BIOS específica), então vale ler o nosso guia de MAME e FBNeo para emular arcade antes de montar a coleção. Ele explica como acertar os romsets e a BIOS pra tudo abrir sem dor de cabeça.
Pra quem quer mergulhar especificamente no universo da SNK, com seu catálogo lendário de luta e run and gun, a nossa lista dos melhores jogos de arcade e Neo Geo detalha o que vale a pena ter no cartão. E se a nostalgia bater também pelos consoles de mesa da época, dá uma olhada nos melhores jogos de SNES, que tem vários ports e parentes próximos desses clássicos de fliperama.
Nota
Sobre a legalidade: use sempre ROMs de jogos que você possui, como cópia de segurança das suas próprias mídias, além de homebrews e títulos em domínio público. O RetroPortátil não distribui nem indica sites de ROMs piratas. A emulação em si é legal; o que regula a questão é a origem dos arquivos.
Qual handheld escolher pra reviver o fliperama
A melhor parte é que você não precisa gastar quase nada. Como os clássicos de fliperama são leves, os aparelhos de entrada já dão conta com folga, o que faz dessa biblioteca uma das mais baratas de montar.
O R36S é o rei do custo-benefício pra essa missão: roda todo o catálogo de arcade e luta sem suar, custa um precinho de impulso e tem botões decentes pros movimentos de manete. Se você está em dúvida, vale ler se o R36S vale a pena, porque ele é uma das melhores portas de entrada pra esse tipo de nostalgia.
Pra quem ama especificamente os jogos de luta e os shoot 'em ups verticais, o Powkiddy RGB30 tem um truque na manga: a tela quadrada 1:1 deixa muitos clássicos de fliperama com bem menos borda preta, num formato mais próximo do original das máquinas. É uma escolha de nicho excelente pra quem quer revivê-los com a melhor moldura possível.
Os dois compartilham a virtude principal: arcade roda em quase todos os handhelds modernos, então o seu foco pode ser na ergonomia, na tela e no preço, não em força bruta. Um cartão de tamanho médio guarda centenas de clássicos das fichas com sobra, transformando o seu portátil num fliperama de bolso.
Perguntas frequentes
Quais são os jogos de fliperama mais clássicos para emular?
Os mais icônicos da era das fichas no Brasil incluem Street Fighter II, The King of Fighters, Mortal Kombat e Tekken (luta); Cadillacs and Dinosaurs, Final Fight, Knights of the Round e Captain Commando (beat 'em up); Metal Slug e Sunset Riders (run and gun); além de eternos como Bubble Bobble, NBA Jam, Pac-Man e Galaga.
Como emular jogos de fliperama no handheld?
A emulação de arcade é feita via MAME e FBNeo, presentes em quase todo firmware de handheld. É só copiar as ROMs pra pasta de arcade. As pegadinhas são acertar a versão do romset (que precisa bater com a do emulador) e a BIOS do Neo Geo. Nosso guia de MAME e FBNeo explica tudo isso passo a passo.
Preciso de um handheld caro para jogar fliperama?
Não. Os clássicos de fliperama são jogos 2D leves, então rodam liso até nos portáteis mais baratos, como o R36S e o Powkiddy RGB30. Você não precisa de força bruta pra essa biblioteca: pode focar a escolha na ergonomia, na tela e no preço.
É legal emular jogos de fliperama antigos?
A emulação em si é legal. O que regula a questão é a origem dos arquivos: o correto é usar ROMs de jogos que você possui, como cópia de segurança das suas mídias, além de homebrews e títulos em domínio público. O RetroPortátil não distribui nem aponta para sites de ROMs piratas.

